
A pergunta era sobre conflito, e a resposta terminou numa música que pode perder um braço e, com sorte, continuar viva.
Em outubro de 2013, às vésperas do lançamento de Lightning Bolt, o Pearl Jam resolveu não dar as entrevistas de divulgação para jornalistas. Chamou quatro amigos para sentar com a banda, e um deles foi Mark Richards, o surfista australiano de Newcastle que ganhou quatro títulos mundiais seguidos, de 1979 a 1982, criou a prancha twin fin Free Ride e é conhecido no mundo todo simplesmente como MR. Ele é amigo de surfe de Eddie Vedder, e a confiança entre os dois chegou ao ponto de Richards ter escrito o setlist de um show da banda em 2006.
Richards abriu com uma dúvida de todo fã. Cada um chega com demos e pedaços de música na cabeça, já ouvindo como aquilo deveria soar: isso não gera conflito, e como se acha o meio-termo? A primeira resposta da banda foi curta. É isso mesmo, achar o meio-termo e escolher suas brigas.
Richards então ofereceu a melhor imagem da conversa. Para ele, uma música devia ser como um filho, uma coisa que veio do nada e saiu de dentro de você. "Se eu shapeio uma prancha, não quero mais ninguém pegando nela, mexendo nela. É minha coisa", disse o surfista. "Sempre imaginei que uma música fosse assim, bem pessoal. Que você fosse muito radical sobre o que deixa as pessoas fazerem com ela, tirando ou acrescentando."
A banda respondeu falando de confiança no instinto do outro e de uma regra não escrita: quem escreveu ganha um pouco de poder de veto. Se a música é do Mike, se a música é do Stone, quem a criou tem um pouco mais de voz sobre ela e pode proteger algum elemento que sente que precisa ser protegido.
Esse veto vem depois, nunca antes. Primeiro todo mundo experimenta, e só então o autor pode dizer que foi jogador de time, que tentou o que sugeriram, e que agora quer aquela parte de volta do jeito que era. Na prática, quase nunca é usado. O contrário acontece bem mais: muitas vezes a banda já convenceu um integrante a dobrar um refrão, ou a acrescentar um refrão que nem existia, dando a ele a confiança de que aquele trecho era melhor do que achava.
Nenhum deles consegue, sozinho, fazer uma música e dizer que aquilo é uma música do Pearl Jam, porque todos precisam ter a chance de mexer nela antes. A frase que fecha o assunto é meio brutal: tem uma boa chance de a música perder um braço, mas, com sorte, ela ainda vai estar viva.
Abrir no site