
Glen Hansard, cantor irlandês e parceiro de longa data de Eddie Vedder, morreu e deixou o mundo da música em luto.
Tem notícias que chegam pesadas demais. Cada um processa o luto do jeito que pode: tem quem escreva imediatamente, tem quem espere dias, tem quem escolha o silêncio. O silêncio não vale menos que as palavras. Numa época em que parece obrigatório publicar a dor pra ela ser considerada real, vale lembrar o óbvio: não escrever não significa não sofrer.
Glen Hansard pertencia àquele grupo restrito que no mundo da música se chamaria de marinheiros. Gente como Tom Waits, Leonard Cohen, Nick Cave e Woody Guthrie. Pessoas que não se limitaram a compor canções: souberam conduzir quem as ouvia até mares desconhecidos, para oceanos interiores que às vezes a gente nem sabia que tinha.
Para quem acompanha o Pearl Jam, Glen era também o Blood Brother de Eddie Vedder. Um artista que, ao longo dos anos, dividiu palcos, canções e um laço humano genuíno com Eddie, nascido de uma admiração mútua que sempre foi muito além da música. Mas reduzir Glen a essa amizade seria injusto. Ele tinha uma voz única, capaz de tornar extraordinário até o gesto mais simples.
Em 2012, em Amsterdã, alguém pediu a Glen que tocasse 'Hairshirt', do R.E.M., uma canção de profundo apego pessoal. Glen olhou, sorriu e respondeu: 'Vou procurar um mandolim. Se achar, toco pra você.' Minutos antes da última música do show, ele parou, pegou o microfone e disse: 'Não achei o mandolim, mas essa também é uma grande canção.' E então tocou 'Devil Town', de Daniel Johnston.
Pode parecer um episódio pequeno. Ele apenas manteve viva uma promessa impossível de cumprir. Mas é justamente nesses momentos que se mede a grandeza de uma pessoa: Glen tinha aquela atenção rara com quem estava à sua frente. A capacidade de lembrar um pedido entre centenas de rostos e transformar o impossível em algo ainda mais bonito.
Em 2005, outra lembrança que não vai embora: um pequeno show dos Frames num bar próximo de casa. O amor por eles já vinha de antes, principalmente por 'Fitzcarraldo', disco imenso cuja faixa-título toma o nome do clássico de Werner Herzog. Aquele filme que conta a história louca de arrastar um navio sobre uma montanha, como metáfora de tudo que Glen foi capaz de fazer: o impossível, com elegância e uma canção no bolso.
Glen Hansard saiu. Mas saiu como saem os grandes marinheiros: com tudo que precisava ser dito já dito, e com a certeza de que as canções vão continuar navegando bem sozinhas.
via PJ Online IT
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