Vs. faz 33 anos: o disco raivoso que salvou a alma do Pearl Jam

· Fonte: Louder (UK)

Vs. faz 33 anos: o disco raivoso que salvou a alma do Pearl Jam

Lançado em 11 de outubro de 1993 no Reino Unido, Vs. foi a resposta crua e furiosa do Pearl Jam ao sucesso sufocante do Ten.

Vs. saiu em 11 de outubro de 1993 no Reino Unido e em 19 de outubro nos Estados Unidos. Trinta e três anos depois, a Louder revisitou a história do segundo disco do Pearl Jam, o som de uma banda batendo em tudo o que tentava engoli-la.

Pra entender Vs., tem que voltar ao Ten. Em 11 de janeiro de 1992, Nevermind tirou Dangerous, do Michael Jackson, do topo da parada americana e o grunge virou assunto nacional. Uma semana antes, o Ten tinha aparecido na Billboard 200 em 155º lugar, quatro meses depois de sair em 27 de agosto de 1991. Pouco pra estourar champanhe, mas sinal de que o disco tinha fôlego. Mais quatro meses e o Ten passou de um milhão de cópias nos Estados Unidos. Em agosto de 1992, a MTV colocou em rotação o clipe de Jeremy, dirigido por Mark Pellington e baseado na história real de Jeremy Wade Delle, um garoto texano de 15 anos que se matou na frente da professora e dos colegas. A partir daí o Ten passou a vender mais rápido que o próprio Nevermind.

"Você não conseguia ir a lugar nenhum sem causar tumulto", lembrou Jeff Ament. A banda começou a se preocupar com o rumo daquilo. Pra frear a subida, o Pearl Jam se recusou a deixar a Epic lançar Black como single e pediu um tempo: nada de entrevistas, sessões de foto ou clipes. Não adiantou. "Quando o nosso disco começou a vender também, foi estranho e muito estressante", contou Stone Gossard. "Todo mundo estava inseguro e tenso. Pra mim o estresse vinha de ser enorme e sentir que a gente era meio ruim. A gente não chegava aos pés das bandas que achava as maiores. Não lembro de pensar 'uau, fizemos o melhor disco de todos'. Só lembro de estar ansioso pra fazer o próximo." Jeff completou: "A gente não esperava que o disco fosse grande coisa. Acho que acabou virando."

Outubro de 1993 prometia discos novos de Pearl Jam e Nirvana. A imprensa vendia as duas bandas como rivais, alimentada pelas alfinetadas de Kurt Cobain sobre a falta de credibilidade punk do Pearl Jam, mas os dois lados já tinham feito as pazes. No VMA de 1992, Cobain e Eddie chegaram a dançar abraçados. "Eu provavelmente poderia concordar com algumas coisas que ele disse", admitiu Eddie depois. "O que me incomodava nessa história era ser pública. Teve um jornalista que pegou uma frase do Jeff e uma do Kurt e isso rendeu matéria. Mas eu sempre senti que era a gente contra o mundo, a nossa cidade contra o mundo, não uma banda contra a outra."

Quando a revista Time procurou os empresários das duas bandas pra uma capa sobre o grunge, Pearl Jam e Nirvana combinaram de recusar. Mesmo assim, a edição de 25 de outubro de 1993 chegou às bancas com o rosto de Eddie na capa, falando de "jovens roqueiros raivosos como o Pearl Jam" que davam voz "às paixões e aos medos de uma geração". "Fomos engolidos pelo mainstream", lamentou Eddie. "Ninguém vai querer ouvir a gente." Errou feio.

A pré-produção começou em fevereiro de 1993 em Seattle e passou pra Califórnia no mês seguinte. Dezoito meses de estrada tinham transformado num grupo de verdade uma banda que existia havia só seis meses quando gravou o Ten. As músicas novas nasceram de jams na sala de ensaio. O som saiu mais cru, mais solto e mais na cara, do jeito que Stone queria: pra ele, o Ten era "pensado demais, tocado demais e roqueiro demais". Foi a primeira vez com o produtor Brendan O'Brien, e a ideia era capturar essa agressividade nova.

Deu certo. Do riff de abertura de Go em diante, o disco tem uma fúria que deixa o Ten comendo poeira, mais perto de banda de hardcore que de rock clássico. Em Animal, Eddie firma a ideia do grupo como unidade ("cinco contra um") e mostra a repulsa pelas tentativas da mídia de se apropriar da estética e das ideias da banda ("prefiro estar com um animal"). A raiva não dá trégua: Daughter trata de abuso infantil, Glorified G ataca a cultura machista das armas, W.M.A. disseca o racismo institucional e a violência policial. Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town, mais terna e melódica, fala de sentir-se preso e sufocado, o que dá pra ler como metáfora da impotência da própria banda diante da máquina que crescia em volta dela.

Em Leash isso fica explícito: Eddie canta "vamos achar um jeito, vamos achar o nosso lugar" e depois grita "sai da minha frente", com um palavrão no meio. Na faixa que fecha o disco, Indifference, ele crava: "vou encarar o sol até ficar cego. Não vou mudar de direção nem de ideia".

O título também era um desafio, uma declaração de independência de uma banda decidida a mandar no próprio destino. "Pra mim, o título representava muitas das brigas que você enfrenta tentando fazer um disco", disse Stone à Rolling Stone. "A sua independência, a sua alma, contra a de todo mundo. Nesta banda, e acho que no rock em geral, a arte de ceder é quase tão importante quanto a arte da expressão individual. Você pode ter cinco grandes artistas numa banda, mas se eles não conseguem ceder e trabalhar juntos, não existe uma grande banda. Quando ouvi aquela letra, fez todo o sentido."

O Pearl Jam não gravou nenhum clipe pro disco, e as entrevistas de divulgação foram raríssimas.

via Louder

Abrir no site

Leia também